Experiência profissional não é sinônimo de resiliência adequada

Olá leitora ou leitor!

Hoje estou escrevendo este conteúdo para dividir uma pergunta muito interessante que recebemos aqui na SOBRARE, sobre resiliência no trabalho.

Meu nome é George Barbosa, e vou compartilhar um pouco deste momento de reflexões com você.

Recebi uma mensagem com o seguinte texto:

Boa tarde doutor.

Tenho uma questão referente aos relatórios do mapeamento da resiliência em minha pesquisa.

Entendo que a escala QUEST_Resiliência não vai caracterizar personalidade e que avalia o comportamento da pessoa perante uma situação estressora. 

Eu vi que no perfil do respondente, não existe uma pergunta sobre o tempo de trabalho enquanto colaborador, e penso que se o comportamento é uma construção, por que o tempo de ação enquanto trabalhado de um campo não influencia na capacidade da pessoa ser ou poder ser mais resiliente?

Alguém que trabalhou 10 anos teve mais oportunidades de perceber o comportamento que precisava melhorar…mesmo que não o tenha feito. 

Quando eu faço a leitura da fotografia que o QUEST realiza da respondente, penso no que interfere para a conquista desta resiliência?

O tempo de experiência me parece tão importante para as empresas hoje. Deve ter uma razão. E acredito que seja a oportunidade de crescimento profissional que o experiente teve e o menos experiente, não obteve.

Me parece que as empresas não estão com tempo e não querem disponibilizar recursos para capacitar o profissional, principalmente para trabalhar em equipe.

E vejo que o tempo de experiência conta mais do que cursos realizados.

Enfim, gostaria de saber o porquê o tempo de experiência não é considerado. 

Como professor nas formações que a SOBRARE possui, sei que este é um questionamento que necessita de uma explicação mais elaborada. Então organizei um texto para minha resposta:

Olá … (pesquisadora)

É necessário fazer uma distinção entre o conceito de desempenho da teoria do trabalho em autores clássicos como Taylor, Fayol, Adam Smith, Marx entre tantos, que significa habilidade para apresentar um resultado em uma atividade de trabalho.

Ocorre que a partir de, particularmente, Foucault, Dejours e Habermas começa a haver um entendimento de que o trabalho tem um stress norteador e a conceituação sobre a atividade do trabalho será alterada na história.

A partir deste desenvolvimento histórico, passei a apresentar o comportamento expresso na resiliência como uma resultante no trabalho.

Então, nas teorias clássicas do trabalho, a experiência conta muito, porque ela implica em perícia quanto maior for a variável do tempo.

Já na resiliência, entendo que a variável que mais interfere é a atribuição de uma intensidade às próprias concepções ou verdades.

Portanto, não importa o tempo experimentado em uma atividade ou campo do trabalho, se a variável da intensidade nas concepções for exacerbada. Quanto mais acirrada for a intensidade atribuída às verdades pessoais, maior o comprometimento da qualidade da resiliência.

Mais a resiliência estará corroída em sua flexibilidade.

O comportamento rotineiro do trabalhador médico, por exemplo, poderá ter perícia, porém, vivenciado com rigidez em suas opiniões e crenças.

Veja a tabela que desenho:

Quanto mais a população estudada se mover afastando-se do Equilíbrio nas convicções (maleabilidade nas crenças pessoais) com o ambiente externo (realidade), e se aproximar das extremidades, – regiões de inflexibilidade cognitiva, maior a tendência de resiliência corroída, independentemente da experiência profissional.

Reflexões à partir de:

 

Christophe Dejours. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 1987.

Michael FOUCAULT. Microfísica do poder. Texto de 2014.

Jürgen Habermas. Teoria do agir comunicativo – vol. 1: Racionalidade da ação e racionalização social. Texto de 2012.

Jürgen Habermas. A Modernidade: Um Projeto Inacabado. Texto de 2017.

Graduação em Pedagogia, em Psicologia, Mestrado, Doutorado com ênfase em Psicossomática na PUC de São Paulo. Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE). Coach certificado nas modalidades de Coaching Cognitivo de vida, Neurocoaching, Coaching Ontológico e organizador do Coaching em Resiliência.
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