Os receios mais comuns de novos Coaches em Resiliência


02/02/2017 | Publicado por George Barbosa | Sem Comentários


Ele já estava no campo do varejo há mais de duas décadas e mais de uma como líder nas empresas que atuou.

Logo que conversamos percebi que possuía enorme experiência profissional.

Como homem e pessoa também demonstrava ser experiente. Por diversas vezes me peguei surpreendido com as suas tiradas. Definitivamente era um homem bem-humorado e espirituoso.

As colegas da turma o chamavam de “Dear”, não me perguntem a razão. Até hoje não descobri. Só sei que ouvia “dear” para cá e “dear” para lá.

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Logo o nosso colega começou a demonstrar dificuldades nos treinos e nas práticas do processo de se formar como Coach em Resiliência.

Como tarefa regular ele tinha que treinar-se com um (a) par e entre si praticarem as diversas etapas de uma sessão do processo de nosso coaching.
Começou a travar e a demonstrar forte insegurança.

Umas duas vezes quis desistir.

Comecei a ficar preocupado. Ver-se como derrotado e incapaz para a arte do coaching começou a ser uma ideia recorrente e suas falas refletiam essa percepção.

Eu precisava fazer alguma coisa.

Decidi alterar o conteúdo teórico (o que era do fim veio para o começo) e levei o grupo a conversar sobre riscos e proteção. Começamos por entender a distinção que existe entre as Condições de Riscos e as Condições de Proteção dentro do Conceito Barbosa de Resiliência.

O primeiro aspecto que tratamos foi ter discernimento de que estarmos cientes de quais são as adversidades e quais são as condições em que elas estão presentes no contexto, definitivamente nos possibilita identificar os desdobramentos dessas condições, como também diagnosticar outras condições adversas que estarão estruturando as condições de riscos que estamos envolvidos.

Sem mencioná-lo diretamente fomos conversando sobre – qual a noção que nosso futuro cliente tem do risco.

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Exploramos que a ocorrência simultânea de duas ou mais adversidades com diferentes especificidades, produz o que chamamos de “Conspiração de Adversidades” (ler mais em minha tese de doutorado). Essa é uma condição de alto risco por haver no ambiente a concomitância de diferentes níveis de adversidades interagindo entre eles. Se não percebemos, vamos vendo, literalmente, como espremidos.

Dessa forma discutimos que os efeitos das condições adversas que interagem na “conspiração de adversidades” podem ser “acumulativos”. O que quer dizer que os efeitos ao se transmitirem de um nível de ocorrência para outro trazem em si a dinâmica e a herança do nível anterior, potencializando o nível seguinte. É como se multiplicasse as suas implicações, agravando as circunstâncias em que uma pessoa, um grupo ou uma comunidade está inserida.

Ele – o nosso aluno -, logo começou a fazer as suas ligações.

Eu estava bem mais tranquilo. Ele iria encontrar seu próprio caminho.

A insegurança estava em não conseguir ser espontâneo no decorrer da sessão de treino de coaching. Sua atuação ficava mecânica. Ele mesmo percebeu que estava artificial. Ficava extremamente preso ao seu roteiro.

Nossas explorações sobre o tema do risco continuaram naquele encontro. Vimos que essas implicações complexas das condições de risco que descrevemos interagem poderosamente com os Modelos de Crenças Determinantes que fazem a mediação das relações entre as condições adversas e as condutas de enfrentamento que a pessoa adotar.

O grupo enxergou que face à adversidade ocorre uma complexa cadeia de mútua influência entre as condições adversas, a competência efetiva da pessoa em promover mudanças e o sistema de crenças que fundamenta a ação da pessoa.

Era exatamente o que estava acontecendo.

Com base em alguns fracassos antigos (experiência e memória) e a crença rígida de que era do mundo das vendas (comercial) e não da gestão humana (crença rígida) os seus Modelos de Crenças Determinantes como a Autoconfiança, o Autocontrole, sua leitura Corporal e seu Otimismo para a Vida ficam muito extremados, e, portanto, rígidos.

Foi fundamental ressaltar para o grupo que se a pessoa agir com base no que interpreta das condições de risco e suas implicações, essa pessoa irá replicar o que na literatura é chamado de Modelo de Risco.

Em nosso aluno temeroso esse modelo está sendo superado pelo Modelo da Resiliência.

O que diferencia um modelo do outro é a concepção (a forma de pensar o desafio / o estresse) que sustenta cada um dos modelos. Por exemplo: Uma pessoa acaba de ser afastada de sua área de trabalho por um diagnóstico de debilidade mental. No Modelo de Risco há uma concepção teórica que leva para a patologia e estigmatização. A conclusão será de que a pessoa devido às condições de risco irá desenvolver uma doença psicológica ou mental.

Já no Modelo da Resiliência a concepção teórica é de que se a pessoa tiver MCDs fortes ou equilibrados nessa época de sua vida, ela poderá sobrepujar e superar essas vicissitudes e sair mais amadurecida, antes de seu afastamento. Essa proposta significa concentrar esforços na identificação de condições de proteção, que aumentam a flexibilidade do indivíduo face aos fatores de riscos e ao desajuste; ao invés de dispensar atenção à tarefa de identificar os fatores de risco.

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Por fim passamos para o grupo a diagnose do ambiente que costumamos fazer nas quais as condições de riscos estão quase sempre presentes -, não com o foco no Modelo de Risco, mas, sim, no Modelo de Resiliência.

De acordo com o nosso conceito de resiliência já exposto, podemos realizar a diagnose do ambiente tendo-se em consideração:

  • Qual é a relação entre os diferentes níveis e graus das implicações do estresse?
  • Qual é o Grau de Conspiração da adversidade – alto ou baixo (volte alguns parágrafos acima se não se lembrar do conceito)?
  • Como estão os Modelos de Crenças Determinantes (MCDs) – o que nos diz o mapeamento resultante da aplicação da escala QUEST_Resiliência?

Esses questionamentos nos ajudam a entender os nossos clientes e os nossos clientes a entenderem em que tipo de situação estão imersos.

E o nosso aluno também entendeu. Passou a enxergar que suas crenças antigas estavam impedindo que se soltasse e confiasse em seus anos de experiência. Também não estava vendo o apoio que os colegas estavam vendo. Ao fazer a análise de todos esses pontos se soltou do roteiro, ousou e conseguiu mostrar para nós que alí também havia um novo Coach.

Era mais um diamante escondido e que carecia de ser descoberto.

O tempo vai passando e nós os instrutores vamos aprendendo cada vez mais com os participantes. Acredito muito que essa é a verdadeira caminhada na vida. Ensino e continuamente aprendo com quem estou ensinando.

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Como citar esse artigo:
Barbosa, GS. Os receios mais comuns de novos Coaches em Resiliência. SOBRARE, out. 2016. http://sobrare.com.br/category/coaching-em-resiliencia/
Imagens do post: Freepik

George Barbosa

George Barbosa

Graduação em Pedagogia, em Psicologia, Mestrado, Doutorado com ênfase em Psicossomática na PUC de São Paulo. Diretor Científico e Membro pesquisador da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE) e professor da Fundação Vanzolini (USP) e facilitador do Núcleo de Estudos em resiliência da Assoc. Bras. de Recursos Humanos (ABRH-SP). Coach certificado nas modalidades de Coaching Cognitivo de vida, Neurocoaching, Coaching Ontológico e organizador do Coaching em Resiliência (CCR). Associado PCC, MENTOR COAH e Conselheiro na Diretoria da International Coach Federation (ICF) – Capítulo Brasil, Acreditado na International Society for Coaching Psychology – MISCP e ao National Wellness Institute (NWI) e Pós-doutorando em Coaching Psychology e Resiliência (UNIRIO).

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