Comportamentos Resilientes em Mulheres Afrodescendentes


10/08/2016 | Publicado por SOBRARE | 2 Comentários


Esse post foi publicado em 2013 com o título “O poder da resiliência em mulheres afrodescendentes – Mulheres que alcançaram sucesso educacional”. Atualizamos o conteúdo e melhoramos a leitura em 2016.

Vamos apresentar para você um belíssimo projeto acadêmico que teve como objetivo estudar a resiliência em mulheres afrodescendentes e os desafios que encontramos nesse cenário por muitos anos da nossa história.

O projeto de Mestrado, foi desenvolvido brilhantemente pela autora Lucienia L. Pinheiro Martins, dentro da Universidade Federal do Piauí.

Os principais fatores que motivaram o desenvolvimento dessa pesquisa e como a resiliência está presente na vida dessas mulheres, você encontrará no decorrer desse post.

Ao final do texto você poderá ter acesso ao projeto completo da Lucienia.

Boa Leitura.

A vida é permeada por momentos difíceis de toda natureza, que podem marcar a existência e até paralisar uma caminhada. Contudo, o ser humano é provido de características singulares que o mobilizam para enfrentar e superar essas dificuldades.

Dentre tantas características que o impulsionam ao crescimento, está a resiliência, da qual a pesquisa que vamos apresentar hoje se propôs a tratar.

Construída ao longo da vida, na interação de elementos internos e externos da pessoa, a resiliência favorece a superação de situações estressoras e adversas.

Neste estudo, prevalece o conceito da resiliência trabalhado pela Psicologia, adaptado por meio das várias definições advindas das ciências naturais, que é a capacidade humana de enfrentar, sobrepor-se ou sair fortalecido ou transformado de experiências de adversidade.

Para aproximar o conceito ao objeto de estudo proposto pela investigação, o trabalho teve como base a definição de resiliência apresentada por Coimbra (2008, p. 96):

“Um processo que se mantém ativo durante o percurso de vida, de resistência, de crescimento e de melhoria de si próprio(a) como resposta à crise e ao desafio”.

Mulheres Afrodescendentes

A crescente presença de mulheres afrodescendentes como membros da classe média brasileira incentiva estudos para saber mais dessas mulheres que parecem superar barreiras de tipos diversos.

Deste modo, à medida que mergulhamos na teoria que discute a questão da resiliência e da afrodescendência começamos a perceber que as mulheres afrodescendentes de forma atemporal apresentam suas histórias envoltas a situações de crise.

Em vários contextos da sociedade tem-se a necessidade de vencer desafios, superar barreiras para conquistar seus espaços.

Envoltas por este cenário percebe-se que à medida que estas mulheres conquistam uma mobilidade social ascendente na sociedade, outras questões internas como:

  • Baixa autoestima,
  • Autoconfiança,
  • Autocontrole,
  • Empatia

Entre outras características as impulsionam ao crescimento.

Neste sentido entendemos que a resiliência se faz presente em várias etapas das lutas travadas pelas mulheres afrodescendentes.

Desse modo, esta pesquisa, intitulada Afrorresilientes: a resiliência de mulheres afrodescendentes de sucesso educacional, investigou como mulheres afrodescendentes com curso superior apresentam seus níveis e intensidades nos modelos de resiliência frente a situações estressoras e adversas.

Nesta pesquisa, são consideradas afrorresilientes as mulheres que apesar de todo o cenário de discriminação, preconceito e racismo que possam estar inseridas, demonstram uma reação positiva frente às adversidades.

É nessa perspectiva de resistência, de crescimento e de autoconhecimento, proposta nessa pesquisa, que se busca identificar e descrever a resiliência em um grupo com características e trajetórias de vida bem específicas: as mulheres afrodescendentes.

Nesta pesquisa o termo Afrodescendente denomina um conjunto amplo de diversas nomeações dadas ao negro, pretendendo eliminar, assim, as desgastantes e não conclusivas discussões em torno do conceito do que é ser negro.

A resiliência

A resiliência vem sendo estudada pela Psicologia Positiva. Essa abordagem rompe com o viés negativo e reducionista de teorias embasadas e focalizadas apenas em aspectos psicopatológicos e volta-se para o que há de saudável e de positivo na vida e no desenvolvimento do ser humano.

Assim, dilui-se a noção de que o indivíduo se vê aprisionado a um ciclo sem saída. Desse modo, neste estudo, predomina a compreensão de resiliência como sendo a característica de uma pessoa que deve ser sempre relativizada e entendida dentro de um conjunto amplo de fatores internos e externos ao indivíduo.

Esta pesquisa surge das reflexões produzidas por Boakari (2010), ao dizer que, mesmo com as conquistas, as situações de discriminação e as experiências excludentes seguem presentes na vida dos afrodescendentes.

O autor enfatiza a necessidade de reconhecimento e de valorização da “presença de mulheres afrodescendentes entre brasileiros de elite. ”

Ministra_Nilma-Lino-Gomes

Tal afirmativa, dentre outras experiências, que serão compartilhadas, estimulou o interesse de identificar a resiliência em um grupo de mulheres afrodescendentes. Como se configuram os modelos de resiliência nas lutas contra a discriminação, o preconceito e o racismo que muitas vivem?

Em termos de resiliência, como melhor descrever as atitudes e as crenças desse grupo de mulheres afrodescendentes?

A forma como uma pessoa percebe e elabora os problemas é um aspecto importante para estudiosos da resiliência. Por isso, para a autora do projeto, compreender a resiliência em mulheres afrodescendentes, e dedicar-se a perceber as características de um grupo de mulheres com curso superior em atividade, foi um exercício visceral.

A autora relata que ao iniciar a reflexão acerca da temática deste estudo, foi inevitável realizar uma retrospectiva de como se apaixonou pelo tema.
As reflexões construídas por Boakari (2010) levou a outros momentos, nos quais ela pode entender seu primeiro encontro com o fenômeno da resiliência. Ocorreu há alguns anos, quando, em um supermercado, olhei para uma empregada doméstica afrodescendente empurrando um carrinho de compras muito pesado e sem ajuda da sua patroa.

No meu coração, houve um minuto de silêncio, por ter percebido um sentimento de entrega, de renúncia, de “predestinação” àquela situação.
Naquela época ela possuía uma crença particular, de entender o serviço de empregada doméstica como uma “extensão da senzala”; hoje já percebe isso de modo diferente, mas naquela situação, esse sentimento se acentuou.

Depois de uma introspecção pode ver que, mesmo em situação limitada, tanto economicamente, quanto de suporte familiar, supondo, extremamente inferior, àquela mulher acreditava haver muitos recursos internos que me moviam a acreditar que o seu “caminho” seria diferente.

Lucienia guarda essa lembrança como fonte de energia para pesquisar, buscando compreender os fatores geradores de resiliência em mulheres afrodescendentes, uma vez que algumas chegam a maiores conquistas e outras se mantêm em situação de submissão e de fragilidade.

Essa vontade latente de pesquisar está associada ao desejo de ver, um dia, quem sabe, por meio da ciência, a sinalização de que as mulheres afrodescendentes podem descobrir, construir e fortalecer essa força intrínseca deixada pelas “ancestrais guerreiras”.

Outro momento que ela relata sobre essas primeiras reflexões foi a leitura da história do Patinho Feio, rememorada na obra Os patinhos feios, de Boris Cyrulnik (2004), a qual me fez despertar para a existência das diferenças e de como, no cotidiano, nas distintas relações sociais, são percebidas e tratadas.

Sua obra levou a revisitar sentimentos vivenciados na infância, em que, do mesmo modo, sentia-me diferente, por pertencer a uma família que não possuía uniformidade nos traços físicos e na cor de pele.

Nesse contexto, compreendeu porque em muitos momentos, desde a infância até a universidade, a “patinha feia” deprimiu-se e isolou-se, podendo ter-se revoltado e reagido com hostilidade às agressões recebidas.

Ela poderia ter juntado a outros revoltados, formado um bando, ter comportamentos marginais. Mas não. Ficou e buscou desde a graduação em psicologia em uma faculdade particular, trabalhar estas questões, e toda esta busca levou ao mestrado e ao grupo de pesquisadores que estudam educação, gênero e afrodescendência RODA GRIÔ onde se fortalece essas discussões.

Histórias de luta

Acredito que a resiliência sempre esteve presente nessas mulheres, por meio de suas histórias de luta, e pelo contexto sócio-histórico em que estão inseridas. A arte de “dar a volta por cima”, ou seja, a capacidade engenhosa de superação das adversidades é uma característica de muitos dos afrodescendentes, basta olhar a música, a culinária, a dança, os diferentes modos de viver e de manifestar esse viver ao mundo tão fortemente observado nos diferentes perfis de mulheres afrodescendentes.

Todas essas riquezas, de algum modo, representam uma tentativa de alívio da dor, do sofrimento, da violência, geradas desde o ventre do escravismo criminoso.

Negras

Por mais que a ciência contribua para o entendimento das forças e das virtudes, como defende a Psicologia Positiva, não é possível omitir que muito da capacidade de “reconhecer a queda e dar a volta por cima” vem do passado.

Além dessa característica positiva que vem de lá, os fatores de risco, ou seja, os comportamentos que predispõem situações negativas, igualmente surgem a partir desse contexto escravocrata e ressoa até os dias atuais.

Muitas mulheres afrodescendentes diariamente se defrontam com adversidades ligadas a esse contexto de discriminação, preconceito e racismo, por isso, precisam buscar recursos internos e externos para superá-los ou transformá-los.

No dia a dia, algumas mulheres afrodescendentes adaptam-se e mostram superação das situações adversas vivenciadas e constroem caminhos positivos diante dessas circunstâncias de vidas difíceis, enquanto outras apresentam esse potencial menos desenvolvido e sucumbem mais facilmente frente aos obstáculos.

Para muitos, parecia algo desnecessário estudar a resiliência em mulheres afrodescendentes, no entanto, agora é notória a riqueza de identificar habilidades que podem ser relacionadas ao sucesso educacional, apesar de todos os entraves impostos em seu percurso.

Aproveite a oportunidade de ler esse projeto de um estudo fascinante e relevante. (Colocamos o link do trabalho no final do texto)

Um projeto fascinante por se tratar de um estudo que promove um mergulho na alma de um grupo de mulheres afrodescendentes, um quebra-cabeças cheio de perguntas, às quais, algumas, esta pesquisa propôs responder.

Relevante por possibilitar a identificação de como um grupo de mulheres afrodescendentes administra suas emoções frente às exigências do mundo atual e, ao mesmo tempo, alcançam o sucesso educacional.

Sua importância está em permitir conhecer como se apresentam as oito características da resiliência pesquisadas por Barbosa (2010a).

Esses elementos podem servir de fonte para o desenvolvimento de programas nas instituições educacionais, como pode provocar novas reflexões nos movimentos sociais que buscam diminuir as desigualdades dessa população.

Este trabalho é importante para a academia, visto que pode servir como referencial de pesquisa para estudos mais detalhados sobre como as características da resiliência influenciam no comportamento humano.

Pode contribuir para programas que favoreçam o acesso e permanecia de alunos afrodescendentes no contexto escolar, promovendo, assim, a superação das barreiras impostas pela discriminação, pelo preconceito e pelo racismo com mais naturalidade e menos disfunções, favorecendo, dessa forma, para um maior sucesso educacional.

E, nesse sentido, os resultados aqui apresentados sobre resiliência em mulheres afrodescendentes concorrerão para que outras mulheres possam conseguir enfrentar obstáculos que as impedem de terem sucesso educacional.

Método dessa pesquisa

Para a realização desta pesquisa, a prioridade foi identificar os modelos de resiliência em um grupo de mulheres afrodescendentes, bem como as prospectivas para estudos futuros sobre resiliência em mulheres afrodescendentes e educação.

Além de registrar o perfil desse grupo de mulheres afrodescendentes a pesquisa teve o propósito de:

  • Descrever a resiliência;
  • Seus modelos e características;
  • Identificar os modelos de resiliência apresentados pelo grupo.

Com os dados coletados na pesquisa será possível aferir algumas prospectivas para futuros estudos sobre educação, gênero e afrodescendência.

A escolha metodológica foi quantitativa e participaram deste estudo 60 mulheres que se autodeclararam afrodescendentes.

A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação do questionário Quest_Resiliência, com auxílio e suporte da SOBRARE.

Os resultados que foram evidenciados, não permitem generalizações, mas podem ser estimulantes para que futuras pesquisas trilhem caminhos mais aprofundados sobre resiliência em mulheres afrodescendentes e suas associações com a educação.

Acesso ao Trabalho Completo

Para ter acesso ao trabalho completo da Lucienia, clique aqui e entre na página de publicações no site da SOBRARE.

Você também pode ter cesso ao livro que a autora publicou com base em seu estudo. Segue o link para conhecer o livro: http://www.editoraappris.com.br/afrorresilientes-a-resiliencia-de-mulheres-afrodescendentes-de-sucesso-educacional

Você que deseja elaborar o seu projeto acadêmico com o auxílio da SOBRARE e desenvolver a Abordagem Resiliente dentro do seu tema de estudo, entre em nosso site e veja como podemos lhe ajudar.

Para fechar, fica o nosso convite para você participar do 3º Congresso Brasileiro de Resiliência, que acontece agora em 12 de novembro de 2016. Todas as informações você encontra no site www.congressoderesiliencia.com.br ou clicando no banner abaixo.

SOBRARE

SOBRARE

Sociedade Brasileira de Resiliência, compartilhando conhecimento em resiliência e trazendo recursos necessários para que pessoas e organizações superem suas adversidades.

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2 Comentários

  1. Regina Mendes disse:

    Gostei muito do conteúdo, gostaria de ter mais material a respeito da Resiliência, como exemplo de Resiliência no trabalho .

    Grata,

  2. SOBRARE SOBRARE disse:

    Olá Regina,
    Nós temos uma área aqui no site onde disponibilizamos alguns conteúdos de forma gratuita. Nós temos disponível um e-book que aborda a resiliência no ambiente de trabalho: http://sobrare.com.br/conteudo-gratuito/
    Abraços!



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