Fases da vida, minhas influências … um caminho para o Coaching em Resiliência


29/04/2016 | Publicado por George Barbosa | Sem Comentários


Quando garoto, eu costumava ouvir meu pai cantar em casa e na Igreja. Por muitos anos, às noites, eu o via fazendo solfejos. Eu nem tinha ideia que aos quatorze anos eu iria também estar solfejando: Lá-Do-Si-MI — Mi-Sól-Mi-Lá — Lá-Sól-Fá-Sól — Sól-Fá-Mi-Ré …

A brincadeira de solfejar começou quando entrei na Banda do colégio.

O Maestro Irineu, logo de início, foi fazendo todos integrantes da fanfarra solfejar. O meu irmão tocava trombone e o meu melhor amigo, repique. A gente fazia uma festa. Eu gostava demais de tocar o Hino Nacional. Hoje eu sei que, nós meninos, estávamos sob os efeitos da Ditadura – um período triste para todos nós que estávamos crescendo em meio a liberdade e ao movimento. Mas, ainda assim, me lembro com um mar de saudades dos momentos em que dedilhava no trompete o Hino Nacional.

Aprender a solfejar, isto é, cantar os intervalos musicais (compassos), por meio de suas notas musicais dando a eles a cadência, o ritmo desejado, podendo fugir da clave de Sól, era uma farra para nós. Conseguir sair de um 4/4 para um 3/4 em uma mesma composição era muito divertido. Mudar a frequência da voz ou das notas dentro da partitura musical era o bastante para termos uma tarde de variações.

Cedo gostei de viver o movimento e as mudanças na música. Aprendi o quão belo é escutar uma composição que encadeia os compassos de forma harmônica e cadenciada. E, muito, muito particularmente, quando em meio à cadência vem a irreverência do compositor.

Passei a apreciar os compositores irreverentes.

Vivi até os vinte anos um tempo intenso de convivência com a possibilidade de mudanças no movimento. Penso que a maior influência acabou sendo Raul Seixas. Escutar a bateria que insistentemente se repetia em Metamorfose Ambulante, era o máximo. Curti tudo o que variava no Seu Raul.

Aos vinte, já no Rio de Janeiro, resolvi fazer um curso de Percepção Musical no Conservatório Brasileiro de Música, bem ali na Rua da Carioca, (RJ). Lógico, no curso só havia Solfejo e Vocalize. Mas eu encarei!

Todas as segundas-feiras às noites, lá da Cinelândia se ouvia toda a turma solfejando, ora com a voz, ora por meio de palmas. Eu era, e ainda sou, péssimo na hora das palmas. Foi nessa época que fiquei sabendo que Bach havia pego uma composição da Idade Média de Johann Schop (1590-1664) e musicalizado, transformando-a na maravilhosa Cantata 147 que traz “Jesus, a Alegria dos Homens”. Bach fez com que o coral se mantenha acima de uma torrente de tercinas (três notas dentro do tempo de apenas duas), que representavam para Bach a forma de sentir e experimentar o que de verdade é, ser feliz. Viver três realidades maravilhosas em um tempo de duas apenas.

Quando você vier ouvir as gravações da Cantata 147 na Internet, preste atenção como há uma variação de um mesmo tema sucessivamente. Ah, hoje você pode ouvir a original na voz de Sissel Kyrkjebø. Absolutamente bonito!

Porém, a minha admiração maior pela mudança do movimento estava e ainda está com Ravel. Em seu Bolero, as variações são realizadas pelo modo como introduz cada conjunto de instrumentos para tocar o mesmo movimento continuamente. Eu costumo me fixar, e ensino aos meus clientes, tanto de psicoterapia como de coaching, que para relaxar e aliviar o stress, um ótimo exercício é ouvirem apenas e apenas, o repique do Bolero. Nada mais. É um exercício de relaxamento extremamente eficaz.

Em Ravel, há um crescendo na repetição. O movimento fica evidente simplesmente por variar os instrumentos. São dezessete minutos de criar a mudança pela cadência harmoniosa.

Se você tiver um tempinho pode ouvir também uma variação feita pelo Maestro Pedro de Freitas Branco que prolonga o compasso e assim as notas ficam como que esticaaaadas. O resultado final é um Bolero mais lento e um minuto mais longo. Muito bom também.

No entanto, o prazer maior está em ver e ouvir Ravel na regência de Gustavo Dudamel.

Por falar nesse maestro não deixe de se delirar com sua apresentação de impressionante coragem ao fazer uma orquestra virar ao avesso quando executa Mambos para convidados de sua terra natal – venezuelanos. As crianças literalmente se envolvem com a orquestra de tão absurda que são as variações e mudanças que presenciam.

Essas experiências, da minha infância à juventude, estão ainda presentes na minha personalidade e fizeram-me, ao organizar o Coaching em Resiliência, dar um movimento que estudamos detidamente durante as turmas de formação na SOBRARE.

Partimos do Preâmbulo. Aqueles minutos que dedicamos a deixar o cliente à vontade, tranquilo, seguro e pronto para a jornada de coaching.

Seguimos com uma rápida introdução do assunto – Resiliência. Dividimos com o cliente qual dentre os oito modelos de crenças (as áreas da resiliência) que deseja trabalhar. Procuramos nos situar sobre o Padrão Comportamental do Cliente naquela área apontada pelo assessment – QUEST_Resiliência, e, finalizamos a introdução com uma boa discussão sobre a Condição de resiliência mapeada pelo QUEST_Resiliência.

Feito isso, nos movimentamos para o Acordo de Coaching. Repetimos a conversação com o cliente do que será trabalhado na sessão, alinhando aos dados que já colhemos lá na introdução. O cliente se apropria de suas condições em resiliência e antevê as probabilidades no assunto que quer trabalhar. Fluímos para todas as etapas do acordo.

A seguir, o movimento cadenciado traz a exploração, propriamente dita.

O cliente é instigado de forma respeitosa a explorar e investigar as crenças, as emoções, as imagens, os sonhos, os desejos, as possibilidades, os obstáculos e tudo o que tiver relevância para ele sobre aquele assunto. Vai ocorrendo uma ampliação do pensamento e da consciência, tanto no Coach como no Cliente e ambos vão tendo novas percepções.

Quando o tema proposto lá no início volta a ficar cadenciado em suas ricas possibilidades nos movimentamos para a fase de transição.

Essa é fundamental. Perder a cadência agora pode significar chegar a nenhum resultado eficaz ao final da sessão. A melhor maneira de fazer isso é levar o cliente a viver uma dança que o leva para visualizar passos para uma nova condição. O cenário por ele desejado! É um momento perigoso esse. Podemos perder o compasso ou sair do ritmo. O cliente, em geral, é mais pessimista nessa etapa. Ele tem dificuldades de assentar passos firmes para obter o que pretende. Em geral é por isso que nos procura.

É hora de se movimentar em uma cadência já conhecida pelo cliente.

Nada de movimentos novos. Nada de novos versos. Vamos pelo mesmo refrão. O cliente está se tornando seguro – já conhece a variação e sabe que ela é a sua grande solução. Trazer o novo à tona, a partir do que lhe é familiar ou que está lá guardado dentro dele.

Por fim, vamos à conclusão dos trabalhos na sessão.

O movimento aqui é de cadenciar para as certezas sobre o que realmente foi percebido. Aprendido. Conquistado!

Em muitas vezes, o cliente já começa a nos agradecer desde aí pelos ganhos que percebe. Nem espera o encerramento.

Na conclusão mensuramos os resultados, checamos e verificamos o que o cliente obteve, se está em acordo com o que veio buscar.

O prólogo, logo após o devido agradecimento, é uma pergunta que se assemelha com o finalzinho, a última parte, do Bolero de Ravel, quando ele recupera o movimento do início e nos faz irmos ao êxtase. O que você irá levar dessa sessão de coaching.

Eu sei que todos nós, inclusive eu, torcemos para ouvir: Uma grande experiência!

É assim que me refiro à Bach, Ravel e Seu Raul. Uma grande experiência!

Em tempo: Não fique bravo (a) por eu colocar Raul com Bach e Ravel. Eu estou ciente da distância entre eles. Eu estava apenas me focando na beleza do movimento que cada um criou em suas composições.

George Barbosa

George Barbosa

Graduação em Pedagogia, em Psicologia, Mestrado, Doutorado com ênfase em Psicossomática na PUC de São Paulo e atualmente Pós-Doutorando no tema do Coaching em Resiliência na UNIRIO. Diretor Científico e Membro pesquisador da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE) e professor da Fundação Vanzolini (USP) e facilitador do Núcleo de Estudos em resiliência da Assoc. Bras. de Recursos Humanos (ABRH-SP).

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