Como não falar de Boris Cyrulnik

Aos apaixonados por estudar e conhecer mais sobre os aspectos da resiliência, vai ser difícil não chegar até Boris Cyrulnik.

Cedo ou tarde, você vai encontrar alguma referência de seu nome em artigos e publicações, ou até mesmo, algum de seus livros nas prateleiras de uma grande livraria.

Já que podemos contar com todo o legado que esse SOBREVIVENTE coloca a nossa disposição, este post irá ressaltar a história e contribuições de Boris Cyrulnik, para o desenvolvimento da resiliência.

Separe um bom café ou se ajeite na cadeira e vamos conhecer melhor esse grande autor.

Boris Cyrulnik

Cyrulnik passou parte de sua infância nos campos de concentração na Alemanha de Adolf Hitler no período de guerra. Foi o único sobrevivente depois de perder os pais, irmãos e amigos.

Após a guerra, ele vagou por abrigos e acabou indo morar em uma fazenda de beneficências, e foi analfabeto até a adolescência, restando-lhe apenas a vida, a esperança e a resiliência. Felizmente, alguns vizinhos desse novo ciclo de vida lhe proporcionaram o princípio do amor, do sentido de vida e da literatura, que lhe tornou capaz de educar-se e crescer superando seu passado.

Boris Cyrulnik

Apesar da adversidade, conseguiu estudar, ingressar na universidade e construir uma vida que é digna de exemplo.

Cursou a faculdade de medicina, se formou em médico neuropsiquiatra e psicanalista.

Boris ainda está proporcionando muito conhecimento sobre resiliência e hoje é considerado o mais importante estudioso do tema.

RESILIÊNCIA E PSICOLOGIA

Uma das maiores contribuições do autor, gira em torno do conceito de resiliência colocado em uma relação privilegiada com a psicologia. Para Cyrulnik, isso é empiricamente demonstrado, através de múltiplas experiências.

Como poderia justificar o desenvolvimento dos pilares da resistência (seguindo a linha de Edith Grotberg) a partir de uma perspectiva psicológica, apontando para a necessidade do “outro” para que todos os pilares fossem construídos sobre a trajetória de uma pessoa.

Essa linha de discussões, facilitou a compreensão do que isso significa para promover estes pilares, dando segurança para discutir programas educacionais, sociais e de saúde.

Entre as muitas experiências que justificam o conceito de resiliência, Boris Cyrulnik explica o que aconteceu durante a guerra no Líbano, em Beirute e Trípoli:

Enquanto Beirute era uma cidade mais cruelmente bombardeada, com mais mortes e meses de guerra, os estudos de campo mostraram que as crianças em Beirute tinham muito menos casos de síndrome pós-traumática. Enquanto em Trípoli, foi mais tranquila.

A própria situação de Beirute fez aumentar a solidariedade e o contato familiar, enquanto em Trípoli as crianças estavam sofrendo muito com o simples abandono emocional e fraternal.

Órfãos que trabalharam após a queda de Ceaucescu, deixaram de ser solitários para estudar, ter uma carreira ou começar uma família, após um programa de assistência social.

Mais surpreendente foi o estudo controverso sobre as crianças com problemas de abuso na família, no qual verificou-se que os traumas não vêm de fato do abuso em si, mas a falta de afeto na atmosfera diária da família.

Não importa o quão sério foi o sofrimento, a psique, será tão flexível que com ingredientes certos de contato humano, empatia e otimismo poderão trazer à tona os comportamentos resilientes.

Uma vez questionado, Boris Cyrulnik explica que ele escolheu esses casos extremos, porque eles são mais fáceis de visualizar o problema, para esclarecer que a capacidade de resiliência não tem fronteiras de nacionalidade, status ou limite de idade. Ele respondeu rindo:

“Mesmo depois de 120 anos em Toulon, estamos trabalhando com pacientes de Alzheimer que se esquecem das palavras, mas não as emoções, gestos ou músicas”.

O autor ainda complementa que não podemos dizer que uma criança é mais resiliente que outra. Mas, podemos dizer que quando no ambiente de uma criança as condições de resiliência são maiores e numerosas, esta criança tem mais probabilidade de desenvolver um processo de resiliência.

É preciso estudar quais são as condições internas da criança. Se ela adquiriu um apego seguro terá mais facilidade para falar, se expressar e poderá buscar um substituto afetivo em caso de infelicidade. É um ponto forte que está dentro da pessoa.

Precisa buscar no ambiente se tem algo de família, se a cultura estigmatiza a criança dizendo “você é um órfão ou bastardo e não vale nada” ou “depois do que aconteceu você não poderá seguir adiante”.

Nestes casos não há grandes possibilidades de resiliência.

Portanto, se a família, o bairro e a cultura impactam positivamente a criança, apoiando e dando suporte, a probabilidade de resiliência será ainda maior.

Por exemplo, uma agressão sexual. Se a agressão sexual acontece fora da família e a criança recebe apoio, ela sofrerá, mas a possibilidade de ter comportamentos resilientes será grande.

No entanto, se a criança é agredida por alguém da família não apenas haverá agressão sexual mas, também, haverá uma traição. É muito frequente, a família não quer acreditar na criança.

As possibilidades de resiliência, neste caso, serão pequenas. Porque se não existe apoio à criança ferida em seu ambiente, esta terá dificuldades de retornar ao seu desenvolvimento.

Contribuições de Boris Cyrulnik

Boris Cyrulnik é um excelente comunicólogo e pedagogo. Quando se apresenta em rádios e televisões, sua voz grave e serena, seu humor natural e permanente facilitam a demonstração de suas teorias, reforçando o impacto de sua comunicação oral.

A recepção de seu discurso pelos ouvintes é também facilitada por uma retórica que se nutre de sua história pessoal, marcada por traumatizantes acontecimentos familiares que perturbaram-lhe a infância, como já foi citado no início desse texto

A partir dessas experiências que o menino Boris pode construir sua personalidade, superar os traumatismos que sofreu e elaborar sua resiliência.
Em 2012 a SOBRARE teve a grande oportunidade de participar do 1° Congresso Mundial sobre Resiliência em Paris (FR), evento que contou com a participação de Boris Cyrulnik.

Nossa equipe se fez presente com uma apresentação de sua metodologia “Abordagem Resiliente” onde expôs aos cientistas como atávamos atuando no Brasil. O foco principal da exposição foi que a promoção de resiliência pode ser realizada por meio de um mapeamento estatístico de crenças e de ações que reorganizem as vulnerabilidades cognitivas identificadas nesses mapas mentais.

O resultado da nossa participação você pode encontrar aqui nesse link.

Cyrulnik escreveu 22 livros até hoje em sua carreira, cuja a lista podemos encontrar no artigo que lhe consagra na Wikipedia francesa. Mas, vamos separar 4 livros que são essenciais para você conhecer sobre as contribuições do autor para o desenvolvimento da resiliência.

Autobiografia de um espantalho
Corra, a vida te chama
Os patinhos feios
Os alimentos afetivos o amor que nos cura

O que você achou sobre as contribuições de Cyrulnik para o desenvolvimento de comportamentos resilientes? Comente aqui abaixo se você já conhecia o trabalho desse grande protagonista da resiliência e o quanto ele impactou a sua vida ou os seus estudos.

Referência desse texto
http://www.redsistemica.com.ar/melillo.htm
http://www.polbr.med.br/ano12/fran1112.php
https://fr.wikipedia.org/wiki/Boris_Cyrulnik

2018-04-16T17:54:29+00:00

3 Comments

  1. Iracilda Rodriques 4 de dezembro de 2018 at 10:42 - Reply

    Fiquei encantada em conhecer o trabalho deste grande homem Resiliente! Me identifiquei bastante!

  2. Flávia 7 de março de 2019 at 03:37 - Reply

    Acredito demais na mudança através do conhecimento. Somos agraciados por este zelo que esse grande homem tem para conosco. Obrigada por compartilhar de tamanho conhecimento sobre nós mesmos.

  3. Suely da Costa 10 de junho de 2019 at 01:39 - Reply

    Nossa divida para com Boris é imensa.
    A quanta gente já ajudou com o que estudou e fez de seu próprio drama. Concluo que há vidas necessárias serem como são, para tornarem-se aulas, ensinamentos a tantos com destinos semelhantes.

Leave A Comment