Uma proposta de aplicação do Coaching em Resiliência para a educação prática no cliente


20/05/2016 | Publicado por George Barbosa | 1 Comentário


Ao longo desse período em que tenho escrito sobre o Coaching em Resiliência (CR), eu sempre procurei apresentar um lado mais prático do coaching. A ideia é apresentar ao nosso leitor o quanto o CR é pragmático e útil na mudança de mentalidade e comportamento.

No entanto, hoje eu quero trazer um conteúdo mais teórico.

O motivo dessa minha iniciativa está na decisão tomada na última reunião do Grupo de Estudo em Resiliência que a SOBRARE mantém com os seus Coaches certificados. Nessa reunião ficou acertado que todos nós iríamos produzir material que traga à tona a fundamentação teórica sobre como ocorre a educação em nosso cliente de CR. Essa é uma necessidade que a cada dia está se fazendo mais urgente. Os convites para falar em algum evento, as apresentações para possíveis clientes e as oportunidades de escrever sobre o CR têm demonstrado que ter o referencial bastante divulgado (nesse blog, por exemplo) é de grande valia para todos nós.

Posto isso, vou rapidamente discorrer um pouco sobre as bases que estruturam como se dá a aprendizagem no Coaching em Resiliência. Essa argumentação é essencial para nós Coaches, ela nos ancora sobre como acontece a aprendizagem e, por conseguinte, a atribuição de significados no CR. O que conhecemos como ressignificação.

Vou apresentar algumas afirmações – pressupostos teóricos -, que considero como axiomas.

O processo de aprender, em todos nós, provém da capacidade de elaborar integrações altamente significativas entre nossos diferentes pensamentos, em um nível mais superficial, e integrações entre nossas crenças, em um nível mais profundo.

Entendo que no CR trabalhamos mais com os pensamentos automáticos que temos e não propriamente com as crenças básicas. Em algumas situações podemos alcançar uma crença mais aninhada, enraizada ou, como a Teoria Cognitiva chama: crenças subjacentes. Desse modo, poucas vezes atingimos as crenças profundas. Sabemos que essas são acessadas quando nos aplicamos a um processo de psicoterapia.

Em todas as metodologias de coaching ficamos mais com os pensamentos que permeiam a superfície -, os automáticos. No Coaching em Resiliência não é diferente!

Embora estejamos cientes de que se trata de um processo que trabalha em um nível pouco profundo, não nos enganamos, os resultados são altamente impactantes.

A elaboração de integrações se dá não somente nos pensamentos, mas também nas emoções, nos sentimentos e nos juízos de valores que organizamos. É um processo que seus resultados estão sempre voltados para o progresso, o amadurecimento da pessoa e suas potencialidades.

Os resultados obtidos pelo CR quase sempre produzem uma sensação de engrandecimento, bem-estar, disposição e predisposição para novos degraus. O cliente sente em si próprio a mudança que acontece em suas cognições e repercutem em seu todo (corpo/mente).

Essa forma de aprender é delineada por David Ausubel quando explica como se dão os processos cognitivos implícitos na aprendizagem. Eu vejo extremamente útil a compreensão de Ausubel quanto ao processamento cognitivo de aprender. O nosso “ressignificar”. Ele a chamou de abordagem da Aprendizagem Significativa.

Eu utilizei muito dela ao formular a Abordagem Resiliente. Considero-a como moderna, alinhada a teoria que possibilita sedimentar uma compreensão cognitiva de como se dão as coisas no campo da cognição, aos novos caminhos da neurociência e os marcadores do coaching moderno.

De modo simplificado pode-se dizer que o exercício da virtude de ser curioso para o conhecimento (e, todos nós somos) faz com que, a cada vez que nos sentimos curiosos em conhecer mais, busquemos algum conhecimento anterior (crenças / convicções mais profundas e antigas) que, organizadas, provém novos conhecimentos (percepções / insights) que são tidos como alicerces para nós e sobre eles vamos construindo nosso edifício de saber.

A esse tipo de conhecimento anterior Ausubel chamou de organizadores expositivos.

Quando a virtude de ter interesse, explorar, enfim, ser curioso para o sentido das experiências da vida se defronta com algo que nos é já conhecido, busca-se fazer comparações de todo o tipo para se fazer a ponte da aprendizagem. Sei que um bom coach aqui irá favorecer que seu cliente faça as comparações entre distintas emoções, sentimentos, imagens e memórias para que haja a integração do conhecimento antigo com o novo. Favorecendo as possibilidades de seu cliente fazer diferenciações, classificações, ordenações, discriminações tanto entre os conceitos antigos como com os recentes.

O coach experiente ao trabalhar com essa perspectiva, sabe que, primeiramente, pode lidar com a aprendizagem significativa do tipo subordinada. Isso quer dizer que, durante o processo de coaching ou mesmo durante uma sessão em particular, um conhecimento está sendo produzido devido ao fato de as informações trabalhadas estarem se subordinando a um conhecimento anterior que o cliente possui. Uma cognição se assenta à uma outra produzindo expansão do pensamento e da visão. Na linguagem de Aaron Beck, esquemas cognitivos vão se ancorando a outros esquemas cognitivos permitindo a sedimentação dos antigos ou a formação de um novo significado. Mais distinto, claro, consciente, relevante e significativo.

O cliente sorri, com suas próprias aquisições!

A trama da cognição começa a se formar.

Outra clareza que o coach deve ter é de que pode trabalhar com a aprendizagem significativa do tipo superordenação. Essa aprendizagem faz com que um novo conhecimento adquirido pelo cliente seja reconhecido como mais amplo que o conhecimento que já possui.

Essa é uma aprendizagem mais trabalhosa. Todos os coaches em resiliência percebem bem aquilo que Ausubel escreveu -; é muito mais fácil se trabalhar na aprendizagem de unir um conhecimento que o cliente vai organizando para se subordinar a outro conhecimento já apreendido (tipo subordinado), do que investir que um novo saber conquistado seja percebido como mais extenso que o saber já assimilado. Sim, é verdade! Mas também é uma rica possibilidade para atuarmos.

Há ainda uma terceira estrada que podemos percorrer no processo do CR. É trabalharmos na aprendizagem do tipo combinatória. Esta alternativa ocorre quando o cliente identifica que seu novo pensamento não é maior nem menor que seus saberes anteriores. O que ocorreu foi uma relação lógica que lhe favoreceu ter mais nexo, clareza ou entendimento. Esse tipo de aprendizagem traz bastante conforto ao cliente. É um sinal de que as coisas estão como deveriam estar. É reconfortante.

Então, certos conhecimentos anteriores de nosso cliente são fundamentais para o processo de coaching. Essas convicções (esquemas) são operantes no sentido de promover novos significados aos novos conhecimentos adquiridos. Essa é a razão porque os clientes costumam sorrirem, balançarem a cabeça agitados, gesticularem amplamente, encherem os olhos de lágrimas, enfim, vibrarem e terem alegria com as aquisições cognitivas que vão realizando.

Esses ganhos não ficam apenas no plano cognitivo. Não, eles se transformam em substância corpórea por meio de neurotransmissores e vão se materializando em todo o corpo. Já não é tão somente material cognoscível, e sim, orgânico. É a mente com o corpo, ou o corpo com a mente em uma “unidade” conhecida por nós como “cliente”. Tudo isso é possível ao reconhecermos todos os clientes em alta conta, e acreditamos que são os verdadeiros responsáveis pelas aquisições que acontecem ao longo do processo.

Eu nem vou mencionar aqui como Ausubel chama a esse fenômeno, é um verdadeiro palavrão. (Subsunçor -, acredita nisso!!!).

Com tudo isso, temos que nosso cliente é absolutamente respeitado em seus saberes. Ele detém o todo do caminho para se chegar às soluções.

Quem sabe em sua próxima sessão de coaching, sem mencionar (na maioria das vezes, até sem perceber) você irá notar que seu processo de aquisições se torna incrível quando um novo conhecimento se conecta com um desses conceitos antigos e poderosos (prefiro dizer poderosos que subsunçor, essa palavra é horrível!), propiciando uma aprendizagem significativa do tipo subordinada em você. Ou mesmo você dar-se conta de que esses saberes poderosos provêm coerência a novas percepções tornando-as significativas para o seu senso pessoal? Acho tudo isso muito fascinante.

Concluo dizendo que o Coaching em Resiliência me encanta. Ao ser elemento integrante desse processo educacional sinto-me realizado ao praticá-lo. Identifico que sou reconhecido pelos resultados dessa maravilhosa jornada, o coaching. Percebo-me útil e participante ativo na mudança do modo de pensar (mentalidade) ou do comportamento de meus clientes.

Envie suas contribuições sobre a aprendizagem no Coaching. Eu ficarei feliz em estuda-las.

Fontes para consultas:
https://www.researchgate.net/profile/Sandra_Ramos_Jorge_A_Ramos2/publication/275969764_Um_Ponto_de_Vista_Positivo_Sobre_a_Personalidade/links/554cd42c0cf29752ee8119ef.pdf

Christopher Peterson e Martin Seligman, Strenghts and Virtues, A Handbook and Classification
Ausubel, D., Educational Psychology: A Cognitive View, Holt, Rinehart & Winston, (New York), 1968.

George Barbosa

George Barbosa

Graduação em Pedagogia, em Psicologia, Mestrado, Doutorado com ênfase em Psicossomática na PUC de São Paulo e atualmente Pós-Doutorando no tema do Coaching em Resiliência na UNIRIO. Diretor Científico e Membro pesquisador da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE) e professor da Fundação Vanzolini (USP) e facilitador do Núcleo de Estudos em resiliência da Assoc. Bras. de Recursos Humanos (ABRH-SP).

Mais posts - Website



1 Comentário

  1. beni disse:

    Olá Dr. George! Percebe-se a sua paixão pelo CR, ela está presente em cada artigo… Também acredito que paixão, na vida ou no que se faz, é fundamental. Excelente artigo. Parabéns!



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *