Coaches que precisam se desbloquear


22/04/2016 | Publicado por George Barbosa | Sem Comentários


Por vezes, no início de uma nova turma de formação no Coaching em Resiliência, eu encontro uma situação muito peculiar e repetida.

De tão estranha que é, essa situação, até me é difícil de descrevê-la.

Um aluno/aluna faz perguntas perspicazes. Tem uma participação ativa, criativa e colabora para um ótimo clima no grupo de alunos. O seu aproveitamento durante a formação é bastante reconhecido por nós os instrutores. Na reta final da formação, nos últimos módulos, quando os participantes começam a esboçarem como irão para o mercado de trabalho, começam a se mostrarem pouco confiantes e indecisos.

Não é paradoxal? Em geral, são profissionais de enorme experiência profissional.

Costumam apresentar argumentos como: Eu não sei por onde começar a divulgação dos meus trabalhos. Os meus conhecidos estão acabando, já não há mais muita gente para eu espalhar a notícia que agora sou Coach. Eu sou vendedor de produtos e não de serviços. Eu não sei me vender. Eu sou um fracasso quanto a vendas.

O mais incrível é que, por vezes, são profissionais tarimbados na capacitação de vendedores.

O que acontece? Esse cenário chamou a nossa atenção e costumamos estuda-lo.

Jeffrey Young demonstrou, a partir das terapias cognitiva e comportamental, que todos nós organizamos sistemas de crenças para fazermos nosso processamento mental, em outras palavras, juntamos diversas crenças que temos sobre as mais diversas áreas da vida para formularmos nossas opiniões. E, ao fazermos esses feixes de convicções (crenças), por exemplo, sobre nossa capacidade de oferecer nossos serviços, passamos a falar e se comunicar a partir desses macros sistemas.

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Young ainda nos fala que em muitas pessoas esses sistemas estão disfuncionais levando para um modo de pensar comprometedor.

Imagine o que ocorre quando esse efeito está diretamente relacionado com a autoconfiança?

Após todo esse tempo na vida profissional acabamos nos dando conta que essa possibilidade de haver uma inclinação para a distorção, não ocorre somente nas pessoas, e sim, nas organizações também. Afinal, empresas são pessoas.

Outro dado muito comentado no mundo corporativo é de que as pessoas têm medo de mudanças.

Ocorre que a teoria cognitiva fala muito sobre essas possibilidades. O medo não acontece por medo, e sim, devido as pessoas ainda não terem ciência do que exatamente é o conteúdo de seus pensamentos. Portanto, de seus medos. A prova disso é que quando perguntamos os motivos da pessoa ter medo, ela nos responde: Não sei! Não sei porque tenho medo. Então passam a defender a ideia e a fazer o discurso de que necessitam aprender algo novo para fazerem aquilo que já sabem executar. Por exemplo, ter dificuldades de fazer um planejamento de como alcançar os contatos que estão fora da sua rede mais próxima de relacionamentos.

Esse modo de pensar – aprender como fazer o que já se sabe fazer -, impede os participantes de nossa formação de se focarem nas suas habilidades técnicas e nas riquíssimas habilidades sociais (soft skills) que possuem, tanto para consolidá-las ou aperfeiçoa-las. É como se tivesse que ocorrer uma aprendizagem voltada para a adaptação à nova condição – formados em coaching.

Eu costumo dizer que a razão e a emoção nesses casos, estão distorcidas. Quase sempre voltadas para um senso de incapacidade. Daí ouvirmos declarações como: Eu sou um fracasso para me vender.

Tais pessoas então se apresentam tão paralisadas que nos parecem necessitar não apenas de competências extras, mas sim, aprenderem habilidades para amadurecerem e atingirem novos modos de pensar. Que necessitam sair do modo de pensar difuso e não personalizado para um modo de pensar no qual o próprio participante seja “protagonista” em seu modo de pensar. Um raciocínio transformador e dirigido para a individualização de si.

Onde estará mesmo a mudança que tanto temem?

Olha só! Quase sempre vão continuar a trabalhar com conhecidos. Irão circular pelos mesmos ambientes, tanto nas empresas, nas consultorias e nos círculos de amizades. Portanto, são raras as mudanças nesses aspectos. Principalmente quando sabemos que clientes desconhecidos surgem, normalmente, por indicações daqueles que já nos conhecem.

Assim, qual a razão do receio? Antes atuavam sob pressão de superiores, de regras e das contingências do mercado. Agora como Coaches sabemos que ficamos somente com as contingências. Nós mesmos somos nossos patrões.

Repito então, aonde está essa tão grande mudança?

Todos nós temos a tendência de pensar a partir do coletivo. E, nessa perspectiva, corremos maior risco de perdermos nossa identidade e como consequência nossas competências e convicções. Dessa forma a mudança maior necessita acontecer na própria mente do novo Coach.

Na forma de pensar nós mesmos! É exatamente aí que se localiza a grande mudança.

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O que facilita a grande mudança ocorrer?

Tenho percebido ao trabalhar com tantos profissionais que há dois vieses que obstruem a transformação.

Um deles é o desconhecimento de si mesmo e o outro é tal raciocínio ser tingido por emoções negativas. Esses erros no modo de pensar são explicados na literatura científica como “erros nas cognições”, ou, podemos dizer, no jeito de alinhavar as informações.

O primeiro viés leva ao novo Coach a ignorar aspectos riquíssimos de sua personalidade e de suas competências. Normalmente já obteve sucessos no passado em várias situações semelhantes à atual, no entanto, devido ao viés, a pessoa passa a ignorar, se “esquecer” dessas vitórias ou demonstração de potencialidades.

O segundo viés, um pensar marcado pelo pessimismo, leva a assumir uma posição de recuo, estagnação.

Para tudo que está relacionado a esse ponto específico, é dado um significado negativo.

Vê-se um antigo gerente de vendas dizendo que não sabe como ter iniciativas e não entende como resolver tal questão. O pessimismo, muitas das vezes, paralisa!

O caminho para a solução quase sempre é descobrirmos áreas aonde podemos identificar potenciais relevantes, acentuados, marcantes e liga-los a fatos reais da história do participante.

Trazer à tona fatos relevantes de sucesso. Explorar as emoções que tais fatos ou experiências afloraram. Então evidenciar as semelhanças, paralelos e coincidências com o momento atual.

Quando podemos fazer essa ligação (memória cognitiva + percepção de sucesso) conseguimos gerar a real sensação de possível autorrealização.

Pronto, o nosso novo Coach passa a se ver empoderado e ativado para a ação. Agora é termos calma para aguardarmos resultados.

Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Tetapia do Esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2008.

George Barbosa

George Barbosa

Graduação em Pedagogia, em Psicologia, Mestrado, Doutorado com ênfase em Psicossomática na PUC de São Paulo e atualmente Pós-Doutorando no tema do Coaching em Resiliência na UNIRIO. Diretor Científico e Membro pesquisador da Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE) e professor da Fundação Vanzolini (USP) e facilitador do Núcleo de Estudos em resiliência da Assoc. Bras. de Recursos Humanos (ABRH-SP).

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