A resiliência e a Biologia Humana

Eu gostaria de propor fazer um desenho. Um desenho sim, sobre resiliência. Mas quero começar traçando o plano de fundo, sobre o qual ocorre o desenvolvimento da resiliência.

Este plano de fundo é a biologia humana.

Quero começar por aqui porque considero esse assunto duplamente importante. Primeiro, porque basicamente toda experiência da vida humana acontece sobre um aparato e um sistema biológico (isto é, o corpo e o sistema do corpo).

E segundo porque, poucas pessoas, têm entendimento do significado desta primeira afirmação (noto, por exemplo, que muitas das pessoas que me procuram para alívio de dor ou estresse não compreendem esse plano de fundo).

Quando o assunto é biologia humana, uma das bases fundamentais é o que chamamos de homeostase, que significa manter uma condição de estabilidade no ambiente interno ao organismo.

Uma vez que o ambiente externo ao organismo tende a estar sempre em estado de mudança, então os mecanismos biológicos de homeostase precisam também estar sempre em estado de ajuste. Ou seja, as condições do ambiente externo estão sempre mudando, então os mecanismos de homeostase estão sempre se ajustando de acordo, para que assim, as condições do ambiente interno permaneçam estáveis e favoráveis à vida.

Um exemplo, para ilustrar, é a homeostase fisiológica do corpo humano, a temperatura do ambiente externo está diferente a cada dia, e até mesmo a cada momento de um mesmo dia. E, no entanto, a temperatura interna do corpo permanece constante a 36,5º C.

Um outro exemplo é o pH do sangue (pH é uma medida de nível de acidez), que permanece constante a 7,4 mesmo que você beba suco de uma fruta muito ácida.

Então esse é o plano de fundo, a homeostase da biologia humana.

Agora, vou trazer mais duas pinceladas para dar mais nitidez. A primeira é que uma pequena alteração na estabilidade interna é um grande sinal de problemas.

Tais alterações precisam ser rapidamente resolvidas ou tornam-se emergências médicas, porque colocam o organismo em uma zona de risco. E a segunda é que, para manter a estabilidade interna, os mecanismos de homeostase precisam ter disponível a capacidade de ajuste.

Ou seja, eles não podem ter rigidez, mas sim precisam ter flexibilidade. E não qualquer flexibilidade, mas uma flexibilidade estratégica, que é a capacidade de se ajustar adequadamente aos desafios variáveis e imprevisíveis que o ambiente externo propõe.

Muito bem, se você me acompanhou até aqui, então completamos o plano de fundo.

Agora, vamos falar de resiliência. E, para isso, eu preciso fazer uma linha de contorno para a parte central do nosso desenho. O ambiente externo, além de variável e imprevisível, é altamente complexo.

Então, nós seres humanos, para conseguir entender e interagir com esse ambiente (que inclui outros seres humanos), possuímos um sistema nervoso altamente desenvolvido. Dentro do sistema nervoso, existe o que vou chamar de uma instância de interpretação.

Nosso sistema nervoso recebe uma infinidade de informações do ambiente externo complexo, e é a instância de interpretação que lhe permite filtrar e organizar essas informações de maneira que nos seja útil, para que então possamos entender o que está acontecendo e agir de acordo. Portanto, a maneira como agimos depende da maneira como interpretamos.

E o que determina a maneira como interpretamos?

São as convicções e crenças que construímos e nutrimos ao longo da vida.

Eu não sei se consegui delinear com clareza, mas vou avançar para a parte central do desenho, que é o desenvolvimento da resiliência. Ora, assim como é com a homeostase fisiológica, assim também é com o ambiente social e de relacionamentos onde vivemos.

O ambiente externo está sempre mudando, e nós precisamos ser capazes de flexibilidade estratégica para o nosso agir nesse ambiente. E, para conseguir tal coisa, precisamos trabalhar a instância de interpretação do nosso sistema nervoso. Esse é o trabalho do desenvolvimento da resiliência.

 

 

Pedro Salles Ferreira 

Biólogo, Terapeuta Corporal, graduando em Psicologia e é certificado como Especialista no desenvolvimento de Resiliência pela SOBRARE. 

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